3.6.10

n.33

o outono nem terminou e são paulo vive circundada pelos ventos gelados que vem do sul. o entardecer de hoje foi bonito, cinza e frio.
nem sei exatamente como fazer esse relato, porque faz tanto tempo que tenho vontade de fazê-lo, que agora que é chegada a oportunidade, me sinto tentada a achar que não vou conseguir colocar em palavras tudo o que gostaria. é tudo tão importante que torna essa tarefa mais difícil.
mas vou tentar.

acordei cedo mesmo sendo feriado. acordei por acordar. acordei assim porque hoje, pela primeira vez na minha vida, abri os olhos tendo a certeza de que meu próximo sono aconteceria na minha própria casa.
levantei rápido, e fui a pé para o apartamento novo. abri a porta, acendi as luzes e sorri um sorriso tão grande, tão feliz. andei pelos cômodos vazios e já enxergava os móveis, as pessoas, a família, as risadas, os filmes, a música. fiquei algum tempo nesse estado de contemplação, muito quieta, mas não em silêncio. na minha cabeça acontecia tanta coisa que nem percebi o tempo passar. absolutamente absorta nesses devaneios, o toque do interfone me trouxe de volta ao apartamento.
a mudança chegou no começo da tarde.
a medida que as caixas eram trazidas, minha alegria só aumentava.
a primeira caixa que foi deixada dentro de casa continha uma etiqueta com a seguinte palavra inscrita em letras garrafais:"LIVROS". daí eu lembrei dos tantos anos que esses livros ficaram em caixas, ou apertados em três prateleiras pequenas. o acesso a eles era difícil. a disputa pelo espaço era enorme, e eu, com o coração quebrantado, sempre tinha que priorizar alguns livros. os escolhidos ganhavam as 3 prateleiras. os tantos outros, de volta pras caixas. mas não gostava disso. odiava, na verdade. livro não se prioriza. é como filho! é preciso ter todos a vista, a disposição, prontos para serem consultados, porque a curiosidade e a arte não têm hora. vida de internato tem alegrias, mas tem esses dissabores...
pois ali estavam, todos eles, me olhando. e eu pronta pra me redimir e oferecê-los prateleiras infindas, organizá-los por assunto, por autor, por tamanho e vê-los todos juntos; sentir aquela sensação deliciosa de indecisão na hora da leitura, pois todos eles estariam ali, ao meu dispor, ao mesmo tempo.
a segunda caixa tinha a seguinte etiqueta: "PARTITURAS". daí o sorriso foi menos aparente, mais emocionado. Sabe quando a gente sorri com o olhar, com ternura? pois foi esse o meu riso. pensei em todas as vezes que tive vontade de tocar uma peça, e lembrei que os livros de partituras estavam encaixotados. lembrei da vontade de poder ter acesso não somente `as notas, mas `aquela edição em especial, com os comentários e sugestões interpretativas do editor... lembrei do dia em que ganhei esses livros de partituras, com o seguinte bilhete: "comprei essas partituras quando tinha a sua idade. essa é a melhor edição que existe. eu já fiz bom uso....agora é a sua vez. um beijo, do papai".

e cada caixa que chegava era um sorriso diferente, uma memória preciosa... finalmente, as minhas coisas na minha casa!
contemplei longamente a vista da varanda. céu estava cinza, coberto, deixando escapar uns raios de sol. tarde bonita.
os móveis já estavam quase todos dentro do apartamento, mas faltava o principal. pouco tempo depois, num esforço imenso, alguns homens carregavam meu pesado e amado piano. o pobre piano que passou anos morando em casas as quais ele não pertencia. mas ele sempre foi meu, desde que tenho 11 anos de idade. e eu sempre soube que ele voltaria pra mim. hoje isso aconteceu. e esse encontro foi belíssimo.
depois de ter tudo dentro de casa, fiquei olhando aquela sala durante alguns minutos. suspirei e mais do que nunca, sorri de felicidade, de contentamento. essa era a minha casa.
apaguei a luz e tranquei a porta.

amanhã é dia de arrumar a bagunça no 33 :)

a título de protesto


esse era o acervo pessoal de partituras dele.
tudo bem que ele é o Horowitz.
ele pode!
mas músico que é músico é assim....

depois, dizem que eu tenho muita coisa...

aiaiai....

2.6.10

para,


quando abro um livro, a dedicatória é algo que geralmente me emociona.
as palavras são poucas, sucintas e dizem muito.
resolvi publicar algumas que acho interessantes:


«Para John Dillinger, na esperança de que ele ainda esteja vivo.»Dedicatória de William S. Burroughs (1914-1997) no poema A Thanksgiving.

«Além de não andar bom de saúde, estou sem cheta. E imperador por imperador, monarca por monarca, tenho em Nápoles ao grande conde de lemos que, embora eu não ostente graus nem diplomas universitários, me mantém, me ampara e me faz mais mercês do que as que posso apetecer.»Miguel de Cervantes (1547-1616), segunda parte de Dom Quixote de La Mancha (1615).

«Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas.»Machado de Assis (1839-1908), Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881).

« Para Antônio Cândido, com a mão estendida para a amizade» Vinicius de Moraes (1913-1980), Antologia Poética(1945).


...

a musa dele.


pra quem me acompanhou no twitter ontem, percebeu que eu estava bem entretida com meus 8 novos álbuns. passei a noite ouvindo música, e mesmo assim, não ouvi nem dois álbuns inteiros.

uma das pérolas que adquiri ontem foi essa: o concerto n. 4 de beethoven pra piano e orquestra, sob a interpretação de Guiomar Novaes, que pra quem não sabe, foi uma exímia pianista brasileira, filha do conservatório de Paris, aluna de Debussy e musa inspiradora do Nelson Freire.

esse disco não só tem o concerto de beethoven, mas tem performances de peças que a imortalizaram como pianista, como a trancrição para piano da melodia para flauta e cordas da ópera orfeu e eurídice. essa peça, em especial, o Nelson toca bastante por aí, tendo a interpretação da Guiomar como referência.

e foi com a música dela que eu terminei meu dia :)

1.6.10

só acontece em DC

ultimamente, a população não "ouve"...
por uma iniciativa do jornal The Washington Post, o famosíssimo violinista Joshua Bell chegou a tocar por mais de uma hora numa das principais estações de metrô de DC (com seu violino Stradivairus avaliado em 3,5 milhões de dólares) e foi ignorado por 1097 pessoas, conseguindo "arrecadar" apenas 32,17 dólares.
vale acrescentar que semanas antes ele se apresentou com orquestra sinfônica de Washington em uma importante sala de concerto e centenas de pessoas pagaram uma boa quantia de dinheiro para vê-lo...
no metrô, de graça, por tempo indeterminado.....praticamente ninguém deu ouvidos.
então eu me pergunto.....música boa é música cara? até onde queremos legitimamente"ouvir"??
fica aí o vídeo desse momento vergonhoso, pra quem quiser conferir.


28.5.10

thank you note.

tô precisando fazer uns desse diariamente...

sábado



O sol acabou de se esconder. Pela minha janela, vejo apenas os reflexos de luz entre as folhas verdes, bem verdes.
Ainda é verão. Faz calor, é quente. É bonito. Tem sol, tem céu, tem azul.
Os pássaros ainda aparecem na varanda. São sempre famintos. Por isso, raramente fogem quando alguém se aproxima. São dóceis.
Mas eu gosto mesmo é dessa janela do meu quarto. Vejo folhas, vejo luz, vejo verde, ouro, amarelo, laranja ou qualquer outra cor que o sol escolha na hora de se esconder.
Já me dá uma saudade precoce desse cenário.
É bom só ficar deitada no colchão, despretenciosa, despida de qualquer ansiedade, qualquer pensamento. Só observando a dança das folhas outrora verdes, agora douradas. Amo quando são douradas. Iluminam meus olhos, meu fim de dia, minha alma. São tão lindas que mesmo quando a noite chega com toda a sua escuridão, parecem brasa fraca, um fogo que vai morrendo, muito rubro.
O sol vai descendo, descendo. O dia vai dormindo; e desse sono, nasce o sábado.
Agora a escuridão é completa.

Ele chegou.

27.5.10

sobre ontem a noite.


qualquer artifício lingüístico que eu tente usar para descrever o concerto de ontem será pobre. melhor, paupérrimo!
o césar tocou cristal, o edu cantou beatriz, a luciana cantou desde o primeiro dia, popó...
e tantas outras canções lindas, e tantas outras interpretações lindas...

tanta conversa, tanto diálogo, tanta compreensão musical!
pra completar, assistir música boa ao lado de quem é músico torna tudo mais redondo :)

foi bonito.





pra começar o dia.

"No one should give in to limitations other than those which are due to the limits of his talent. No violinist would play, even occasionally, with the wrong intonation to please lower musical tastes, no tight-rope walker would take steps in the wrong direction only for pleasure or for popular appeal, no chess master would make moves everyone could anticipate just to be agreeable (and thus allow his opponent to win), no mathematician would invent something new in mathematics just to flatter the masses who do not possess the specific mathematical way of thinking, and in the same manner, no artist, no poet, no philosopher and no musician whose thinking occurs in the highest sphere would degenerate into vulgarity in order to comply with a slogan such as "Art for All." Because if it is art, it is not for all, and if it is for all, it is not art."
Arnold Schoenberg

26.5.10

30.5.10


essas são as amigas.
a do meio, com um "b" desenhado na testa é a noiva.
eu sou a dama.

domingo é o dia dela.

e eu já desejo tudo o que meus sorrisos dizem sem palavras.
porque essas coisas, não tem como desejar dizendo.
só desejando.

fica aqui a homenagem da dama laura pra noiva cixa.

love u ;)

25.5.10

linda.

....

comprei :)


Faz tempo que não falo nada sobre ele aqui. Deve ser por causa do meu luto, ao descobrir que Nelson está com tendinite e cancelou todos os concertos até julho de 2010. Torçamos pelo melhor, e que o segundo semestre traga "bons ventos".
Comprei esse cd recentemente, e o artigo abaixo foi publicado pelo Estadão em 13 de março de 2010...


Há um ano Nelson provocou reações superlativas no mundo inteiro com seu CD dedicado a Debussy, o especialista nas chamadas meias-tintas. O brasileiro criou várias camadas de gradações de dinâmica entre o meio-forte e o pianíssimo (até os famosos 4 “p”). Pois com este álbum duplo ele confirma o seu incrível talento para lidar com sutilezas de dinâmica. De novo, raramente ultrapassa-se o reino do meio-forte; a zona sonora de preferência do compositor polonês nestas 20 pequenas obras-primas gira daí para baixo, até os pppp.Já se falou à exaustão que os noturnos são para Chopin o seu modo mais íntimo de criação musical. Talvez por isso mesmo – e Nelson demonstra isso com um refinamento notável -, ouvi-las em conjunto pode nos dar a chave para a compreensão da arte pianística do compositor, já que ele conviveu com o gênero dos 17 anos, quando ainda morava em Varsóvia, até a morte em Paris em1849.
A recusa ao virtuosismo; o gosto pelo detalhe; a construção dos longos arcos que constituem as melodias características dos noturnos; o entrechoque do acompanhamento aparentemente imutável da mão esquerda, com frequência em tapetes de arpejos, e o rubato aplicado com extrema parcimônia no fluir da mão direita; o timbre brilhante e cristalino que extrai do piano – todos esses são atributos que fazem desta gravação um modelo e referência (e olhem que há centenas de registros dos noturnos, incluindo leituras iluminadas como as de Rubinstein, Arrau, Ashkenazy, Maria João Pires, Barenboim e Pollini, entre tantos outros).
Quem sabe a maior qualidade desta versão de Nelson Freire seja o equilíbrio. Ele jamais descamba para o sentimentalismo barato que acomete mais de um dos ilustres citados; nem se deixa arrebatar tentando acentuar coisas que não existem nos noturnos, tal como a virtuosidade, por exemplo. É por causa dessa ambivalência que essas peças são até certo ponto desprezadas no conjunto da sua produção pianística, tidas como meros produtos de consumo, destinados às moçoilas bem-nascidas dos salões parisienses e às casas que em cada vez maior número compravam o seu próprio piano. Peças musicais fáceis, simples, destinadas a amadores.
Chopin criou temas ao mesmo tempo raros e naturais, para um gênero efêmero, destinado a não viver mais do que algumas semanas ou meses como peças favoritas nos salões parisienses. Transformou pecinhas de consumo em seu laboratório de experimentação para gêneros mais ambiciosos, como os scherzi, as sonatas e a barcarola. Como Chopin, Nelson também possui um toque ao mesmo tempo raro e natural.

24.5.10

na quarta-feira..

eu vou assisi-lo..




e a ele tb..



e ele também!!




os três juntos.. :)

dps eu conto como foi..
e viva a vida na metrópole !!!

universo-congonhas


Congonhas, fim de tarde, sexta-feira. É até engraçado relatar essa rotina. O taxi que me leva é o último de uma enorme fila de outros taxis, todos com passageiros apressados. Quando as portas automáticas se abrem, um universo a mim se descortina.
Sozinha, vou rumo ao check-in e pego o celular. Conversar com aqueles que me são muito chegados dá a sensação de que tem mais gente comigo e assim, eu não me sinto como um inseto perdido nesse planeta aeroporto.
Despacho minha mala e sigo ao telefone, rumo à sala de embarque.
E brasileiro é engraçado: a televisãozinha anuncia que o vôo está em solo e o embarque se dará dentro de instantes, e sempre tem um ansioso que já fica em pé, na fila, prejudicando seu sistema circulatório e agravando as varizes nas pernas...tenho pena!
Fico sentada, ainda ao telefone, até que todos os passageiros estejam dentro do avião. Quando ouço "Senhora Laura Morena, está é a última chamada para o vôo ...blábláblá" então é que me levanto, desligo o celular (viva o tim infinity!!..rs) e vou. Tudo isso para não ter que esperar em pé dentro da aeronave, até chegar ao meu assento que, geralmente, é o último.Isso tudo envolve uma tremenda matemática.
Hoje, calculei errado! Foi chegando dentro do avião que me dei conta desse lapso: muita gente em pé ainda, "acomodando seus pertences nos compartimentos acima dos assentos".
Vou andando pela estreita passarela a passos de noiva , com todos os outros passageiros adiantados, sentados a horas, lançando-me olhares dissecantes....nem ligo!
Os pertences de mão pendurados em meus ombros são volumosos e esbarram em cada assento durante minha peregrinação até a outra ponta do avião. Gente se apertando, gente parando o trânsito desse corredor porque sentou-se no assento errado, crianças chorando....uma festa!!
De repente, acontece o que faltava: um comissário comete a infelicidade de tentar andar na contra-mão. Decisão nada prudente!!! Eu assisto o seu espesso corpo entalando pelo caminho, de passageiro em passageiro.
Ele se aproxima e eu já começo a rir. O corredor é estreito, e minhas duas bolsas penduradas em meus ombros são volumosas. Bingo! O comissário pára ali mesmo!
Num esforço sobre-humano, ele consegue se desvencilhar das garras das minhas bolsas, que insistiam em persegui-lo. E eu, lacrimejando de riso! Novamente, os olhares se voltam para mim e eu desfilo pelo avião rindo como se tivesse ouvido a melhor piada já contada.
Ao longe, avisto meu assento. O último do avião e uma poltrona no meio de outras duas. Os compartimentos de bagagem estão todos lotados e já não há mais lugar para os meus pertences...
O senhor da poltrona do corredor se levanta e quase que num ato heróico, eu consigo me assentar!
Daí, percebo que me assentei em cima do cinto de segurança do senhor do lado.
Me levanto com toda a parafernalha das bolsas, acho o cinto e me sento novamente, com uma bolsa nos pés e outra no colo. Os últimos assentos do avião não são reclináveis...
E assim, eu decolo.
Já já, chego em Brasília!
Fim de semana de muita música.
Amanhã a noite, tudo de novo....

Eu volto, e o "universo-congonhas" me aguarda novamente.

:)

23.5.10

estrela, estrela!


estrela, estrela!
tão brilhante, tão distante;
cintilando solitária,
tens um brilho elegante.

és a dama do escuro,
a senhora do negror;
sempre acenas a este mundo,
com matiz tão incolor.

sempre penso que és tristonha,
de fulgores lagrimosos;
incompreensível vergonha,
têm teus raios luminosos.

e iluminam o mundo todo,
menos tua própria aura.
trazes luz a todo tolo,
mas em sombras cai tua alma.

ah, estrela, estrela!
abandona a teimosia.
reencontra tua beleza,
que mil luzes reluzia.

ilumina-te a ti mesma,
e aceita a exuberância!
é inútil ser brilhante,
e esquivar-se em relutância.

aproveita a tua luz!
não te escondas nesses raios.
largue o pranto por sorrisos.
vem juntar-se aos iluminados.

brilha, estrela!


lmmc.

1.5.10

post bobo pra descontrair

este que toca comigo é meu amigo sullivan.

resolvemos tocar a música "oh Deus de amor", subindo de tom em tom, de dó a dó.

detalhe que quando chega no tom SI maior, eu desisto de pensar nos 5 sustenidos e toco um acorde só!!
mas foi divertido.....sempre é, apesar de ser BEM feio, com muitas notas erradas....rsrs.

e eu já to com saudade desses momentos...


22.4.10

esta cena...


o pianista. filme relativamente velho (2002). assisti hoje pela primeira vez. gosto de assistir filmes muito famosos depois que o calor da fama se esvai (ex: titanic saiu em 1998 e eu o assisti pela primeira vez em 2002).

a cena da foto me arrancou soluços.

porque a música fala, explica, preenche e salva.

19.4.10

Impromptu op.90, n. 1

estou estudando essa peça de Schubert.

eu amo Schubert. muitos que me conheçam talvez achem que as obras desse compositor não combinem com a minha personalidade, mas eu digo que elas me tocam de forma tão profunda como poucos outros compositores me causam; elas expressam uma parte de mim que só se explica e se entende enquanto faço musica.

Schubert geralmente escreve peças longas e extremamente melódicas! como gosto e como me sensibilizo. Nesse improviso, em especial, me chama atenção a forma calorosa como as variações se constroem.

em uma palavra: LINDO. e com o Zimmermann tocando, fica dificil fugir dessa obviedade, apesar de a minha interpretação preferida dessa obra não ser a dele, e sim a do Alfred Brendel (pra quem quiser conferir: http://www.youtube.com/watch?v=149UGrLzR5w&feature=related )
Escolhi publicar a versão do Zimmermann porque ele aparece tocando. Mas no video do Brendel, da pra acompanhar com a partitura.

Anyways, enjoy!

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10.4.10

os meus


não tem pra onde correr.
o mundo pode virar de ponta cabeça, mas o amor deles é constante.
e recebe-lo me faz entender melhor o que é o amor de Deus.
ter irmãos é a melhor coisa que existe.

sem eles, não tem como.

23.3.10

Die Moldau


texto escrito enquanto eu ouvia "Die Moldau", composição orquestral de Smetana.


a noite já dormiu, e meus olhos não fecham.

dentro de meu corpo, sinto um milhão de sensações. sinto música que não sei exprimir ou explicar. sinto uma saudade do que ainda não tive, e sinto um amolecer macio, um misturar de todas as sensações possíveis.

vontade de viver da escuta, da poesia e do belo. vontade de viver da pena e do pergaminho, livrando minha mente dessa melodias que tanto me rondam, e se recusam a me largar. sinto um prazer desmaiado, entregue. um levitar parado, que transcede qualquer tentativa de explicação de êxtase. sinto a estranha delícia oriuda da mistura da boa e amarga solidão.e meus olhos vão fechando, mas não por sonolência. fecham por não conseguirem suportar esse meu desmanchar interior. fecham para acompanhar o resto do corpo e serem tão internos quanto qualquer outra parte mim. fecham-se para impedir a entrada de qualquer elemento que não pertença a esse momento de beleza. e um sorriso se esboça. um sorrir que é só lábio. as notas me embalam, e dançam comigo. e eu danço e danço solitária. os olhos fechados agora equilibram algumas gotas que ameaçam despencar. e é como se um rio imenso corresse por minhas veias com suas águas hora corridas, hora plácidas. e nesse andar, eu sou parte das correntes, misturando-me nessa cadência. meus pés se apertam, pois não pisam. eu suspiro baixinho, e meu lábios novamente se contraem amordaçando um riso de mim. lembro da ponte e do vlatava. vontade louca daquele afago e daquela brisa gelada de fim de inverno. vontade do chão de pedras pequenas e vontade de olhos bem abertos,desesperados, sem saber exatamente como fixar pra sempre na lembrança um momento de beleza tão sublime. saudade daqueles braços abertos, e da sensação de estar no topo do universo, sem mais niguém. e as águas continuam a correr, incansáveis. minhas mãos acompanham as nuances melódicas do rio, e a mente relembra a brancura dos tchecos, pálidos e de feições congelantes, assim como as correntes que a pouco escorriam.

eu preciso voltar a Praga, antes que me afogue nessas águas que a todo instante me inundam os pensamentos.


12.2.10

sala de embarque


o bahia é tão colorida, tão sorridente...
ela foge do sol e procura o calor do povo! o carnaval traz uns turistas mais amoados a essas terras felizes, mas o ar que paira é espesso, quente, caloroso.

o joão gilberto canta que veio da bahia, mas um dia ele volta pra lá. canta e toca sobre a bahia do jorge amado, do vinícius de itapoã, do caetano e da bethania e de tantos outros.... e ela espera as horas se arrastarem. percebe os sotaques, as diferentes matizes de bronzeados e olha para a pele pálida com uma tristeza invejosa.

salvador está ensolarada...quem dera pudesse mergulhar na cidade do carnaval e se encantar com as cores, as alegrias, os sabores,as variedades.
observa de longe e divaga..

ainda faltam 3 horas para que embarque...
e o nordeste ficará.

28.1.10

a chácara.


Ela é pequena e aconchegante. Muitíssimo jardinada, contendo quase todos os tipos de flores e plantas tropicais.
As duas casas são de madeira e pintadas dum rosa quase branco. O calor equatorial deixa a tonalidade do ar quase alaranjada, quando uma rara brisa sopra e alvoroça a terra vermelha , misturando-a com o rastro polvilhado dos raios de sol.
Muito verde, muitas frutas, frutas do norte: cupuaçu, graviola, carambola...todas no quintal, esperando ser apanhadas do pé.

Eu ando pelos canteiros e tenho lembranças ternas; ando e recordo o curral que me amedrontava, recordo o leito fresco de todas as manhãs, recordo as brincadeiras no areal que me punham irreconhecível, recordo o cheiro de repelente constante e necessário, recordo as idas ao galinheiro( quando eu , penalizada, precisava escolher uma galinha para o almoço).

Lembranças preciosas...

Hoje, o curral está vazio, assim como o galinheiro. A chácara não tem sinal de internet ou de telefone. A antiga e farta biblioteca de meu avô agora cheira a mofo e a cozinha - antes o santuário da casa - está desativada.
Ninguém mais mora aqui. O jardim continua belo, mas poucos apreciam essa beleza. Tudo parece ser como era, mas não é.
O almoço foi farto e saboroso, como costumava ser; minha avó ainda reina por terrenos culinários.
E alguns ainda conseguem concentrar-se no calor, nas picadas dos mosquitos, na poeira...

Tanta chácara para poucos apreciadores...

Escuro


As luzes se apagaram. A treva absorveu rapidamente as conversas, os rumores, a elegância e as faces.
Uma cobertura densa e negra apagou os olhares que agora, geravam agitos de gente sem saber para onde ir ou para onde olhar.
Anoiteceram as palavras.
Escureceram-se as falas.
Tudo silenciou.

Estava escuro.

(texto escrito depois de um apagão numa ambiente público e festivo.....sem saber o que fazer e em meio a escuridão, eu quis testar uma caneta nova, mesmo sem ver um palmo a minha frente.....portanto, as palavras disseram pouco....o que valeu foram os rabiscos.)

25.1.10

meu scherzo chopiniano favorito..

é o número 4, op.54 !!!
sem excessos, sem apelo emocional, ele emociona.

neste vídeo, existe uma falha bem no meio, pq aparentemente, ele foi gravado de um VHS bem velho......mas a interpretação ta maravilhosa...

enjoy


o tempo e o vento























meu namoradinho me presenteou nesse natal com algo que eu queria há tempos: a triologia "o tempo e o vento" de érico veríssimo, escritor que eu amo!

é dividido em 3 partes: o continente, o retrato e o arquipélago, num total de 7 livros....
estou amando e recomendo..

fim das férias.

ok, eu tirei umas férias das postagens, mas agora estou de volta....tanto nas postagens literárias quanto musicais......

abraço a todos.

11.1.10

2010 chegou


como transcrever as sensações que um reecontro provoca?
ainda mais nesse tipo de reecontro: daqueles amorosos, com abraços de muita saudade, beijos curtos e repetidos, olhares cheios de dizeres bonitos e um frio nas mãos perene...
depois, os adendos que se seguem só servem para emoldurar a beleza do momento: gentilezas infinitas, um falar calmo e comedido, mãos que não se largam e a felicidade de um casal apaixonado, separado há 8 meses, que finalmente, se reencontra para celebrar o começo de um ano que chega...
momentos antes, dentro de um avião, a ansiedade de chegar ao destino tão almejado e ver chegar um ano igualmente desejado manteve duas pupilas constantemente dilatadas, um coração batendo em rítmo militar e também deixou duas bochecas doloridas por não conseguirem conter um riso indiscreto e declarado.
e o ano de 2010 chegou com o frio das nevascas americanas e com o calor de um sentimento que resistiu a distância de dois continentes, as 4 logas horas de fuso-horário e acima de tudo, resistiu aquele post antigo que relatava a dureza que é aguentar a saudade torturante.
2010 chegou para reaproximar, para unir, para fazer conhecer e conviver.
e basta para cada fase o seu próprio mal. a alegria está em saber que os obstáculos que existiam foram vencidos um a um. não que não existam mais; pelo contrário, talvez outros ainda maiores estejam por vir...mas não dar-lhes tanta atenção é uma bela saída. daí, eles se envergonham e escoam, um a um.

foi assim que o vigésimo segundo ano da minha vida começou.
com alívio, a etapa "distância" está acabada.
viva o brasil e viva 2010!


18.12.09

o primeiro.


meu amigo se casou.
meu melhor amigo se casou.
fui madrinha, e o nosso outro melhor amigo entrou comigo.

nervosismo, ansiedade e a porta se abriu.
luzes, flores, cores.
convidados emocionados, convidados entediados, convidadas fofoqueiras.
música, músicos.
ele, lá na frente, em pé, sozinho.
e quando o olhar dos 3 se cruzou, foram 6 olhos marejados e 3 cabeças com o pensamento lá na infância, na escola de botafogo, no rio de janeiro do início dos anos noventa, nas aulas de piano, na amizade infantil que sempre tangeava terrenos amorosos, nas brincadeiras de casinha, nas brigas, nas (já) composições infantis, no IAP que nos juntou novamente, nos (raríssimos) estudos, nas aulas de violão, nas conversas conversadas por olhares, na cumplicidade agora amadurecida intacta por tanto tempo e acima de tudo, na amizade que nos fez irmãos, de sangue mesmo...

quando a gente é criança, não sabe quem vai e quem fica. por sorte, ou por bênção, esses dois ficaram. e naquela hora, éramos 2 e não mais 3. naquela hora, naquela entrada, nós víamos nosso amigo crescer; e com um enorme sorriso no rosto, seguir seu caminho, sem medo...naquela hora, já tinhamos saudade de tudo e os risos misturados `as lágrimas eram mera aprovação, orgulho, exasperação; tudo tão misturado que não saberia explicar..

e choramos. e nos alegramos.
os nossos sorrisos são espelhados no dele.
se ele sorri hoje, nós também sorrimos.

depois de tanta festança, eu sai com o orgulho de saber que amizades assim existem além da ficção. saí desejando que esse sorriso dele seja eterno e dure até quando eu mesma não puder mais sorrir...

e ele foi apenas o primero....

comprei.

17.12.09

dicas

o site da tv cultura é bastate rico..
pra quem tem interesse, entre em www.tvcultura.com.br .....
vários programas interessantes, como por exemplo, o programa "clássicos", que passa todas as 3ªs , as 23:00, e reprisa toda quinta-feira...
to adorando......pq daqui a pouco, vai começar o reprise de um recital do nelson....rsrs!...

outra coisa legal é o site www.medici.tv ....
só que nesse, só dá pra assistir parte dos vídeos. se quiser assisti-los na íntegra, tem que pagar.....mas mesmo assim, tem coisa ali que vale a pena......vídeos de intrumentistas diversos, concertos famosos, documentários sobre regentes, intérpretes e compositores......vale a pena.....

serve pras horas de "ócio construtivo" (pra quem não é músico)....e pras horas de estudo (pra quem é....)

enjoy.

11.12.09

cantinhos


é tão bom quando descobrimos pequenos cantinhos nas metrópoles. cantinhos que são únicos, que só existem ali. na imensidão urbana, quem descobre um desses sente-se herói por saber da existência de um lugar tão singular e tão oculto.

fui a um centro cultural segunda passada. chovia e chovia. assisti um concerto. eu e dois amigos. é bom ouvir música sendo bem feita na companhia de músicos; todos sentem e reagem juntos a detalhes que facilmente passariam despercebidos. o pequeno auditório ficava dentro deste centro.
depois de alimentar minha alma com tanta criatividade e bom gosto musical, resolvi "explorar" o centro cultural. avistei uma porta de vidro, e o ambiente lá dentro me chamou a atenção: habitado por várias pessoas de aparência peculiar, muitos quadros, tintas abertas e borrões por todos os cantos. duas camas bagunçadas. cada um fazendo uma atividade diferente, todos com fone de ouvido. uma cozinha. não havia paredes, divisórias, nada. e sozinho, bem na entrada, concentradíssimo, eu encontrei esse pintor. pintava calmamente. parecia que pintava no rítmo da música que tocava em seus fones de ouvido. eu assistia interessada. um minuto depois, ele se distanciou do quadro, e sentou a uns 3 metros de distância. olhava, olhava. lançava olhares tortos, duvidosos para sua obra. estava tão absorto em sua arte, que não percebeu minha presença.
e eu olhava pra ele, olhava para o quadro. e num silêncio quase reverente não conseguia conter minha alegria por estar testemunhando aquele momento único.
o artista concebendo a arte. fazendo ali, na minha frente....

entrei no carro, e ainda chovia......
e voltei pensando.
ainda bem que existe arte.
ainda bem que sou artista.
ainda bem que existem artistas por ai, espalhados, em cantinhos nunca imaginados, mas que compreendem essas minúcias e lançam sua alma em cada manifestação artística, nem que seja para ninguém ver.

porque a arte por si só já basta.

1.12.09

:)


sou a mais nova assinante da temporada OSESP 2010!...
inclui 9 concertos durante todo o ano, tem desconto de estudante, e o concerto de fechamento será o brahms piano concerto no. 2, e o solista será nelson freire.....
antes disso, otimos concertos com repertorio interessantissimo, tendo compositores como: Tchaikovsky, Rachmaninov, Debussy, Saint-Saëns, Ginastera, Berlioz, Dvorák, Schubert, Mahler (sinfonias...), Britten e tantos outros.....

IUPI!

(pra quem tiver interesse, www.osesp.art.br )

50 anos sem villa-lobos


no dia 17 de novembro, fez 50 anos que o Brasil perdeu um de seus maiores compositores.
sempre apreciei a obra de villa-lobos e esse gosto me foi legado por meu querido pai, que desde sempre tocou e ouviu villa-lobos; agora que comecei a estudar sistematicamente sua obra e a analisar seu estilo de composição, essa admiração só aumentou.
no repertório para piano, o mais impressionante é como ele usa elementos rítmicos tão característicamente brasileiros e é sobretudo, erudito.....

nesse contexto, eu recomendaria para audições preliminares o cd de anna stela chic ou o de nelson freire, tocando a prole do bebê. ambos os intérpretes tocam o mesmo repertório. mas ana foi quem abriu as portas da europa musical para nelson. os estilos de interpretação em nada se parecem, mas vale a pena comparar.

outro cd que vale a pena ouvir é "obrigado brazil", de yo-yo ma. neste, as músicas que foram originalmente escritas para piano têm transcrição para duos de cello e piano. mas as parcerias são perfeitas e é muito bacana ouvir a compreensão de yo-yo ma da música brasileira.....esse cd contém não só obras de villa-lobos, mas de camargo guarnieri e outros importantes compositores brasileiros. mas como o nosso assunto aqui é o villa, eu indicaria as faixas "a lenda do caboclo" e "alma brasileira"..

enjoy.

23.11.09

relatos silentes


os dias atuais tem sido comedidos. vivo entre silêncios e palavras ponderadas. os veríssimos, as brontë e os apóstolos tem sido companhia constante.
ando observando muitos as pessoas, as gentes. coisa curiosa.
voltava ontem de são paulo (novamente, e dessa vez sem apertos no metrô, sem calor sufocante e sem atrasos...). o trajeto até o terminal tietê foi tranquilo. Miraculosamente, pouco ou nenhum trânsito. é o que os paulistanos chamam de "bênção dos fins de feriado", resultando no contra fluxo no trânsito da cidade. Pobre de quem veio a sp. sorte de quem saiu, como eu.
cheguei com certa antecedência, comprei minha passagem (da viação bonna vita), e como me sobraria algum tempo, entrei clandestinamente na sala vip da viação cometa ( sei que esse meu ato não foi o mais honesto possível, mas se mais passageiros como eu repetirem o feito, a Cometa pode alertar-se para o fato de que a inclusão do destino "arthur nogueira" pode ser lucrativa) e por lá fiquei. eu e o veríssimo pai. entretidos e maravilhados. li "o prisioneiro". como gosto dessa escrita, dessas descrições.
uma olhadela no relógio me levou até a plataforma 28, e lá embarquei. ônibus cheio. do meu lado, uma menina de 12 anos. o nome, laura. "seu nome é laura? o meu também..." e ela me respondeu com um sorriso doce e quieto. senti que aquela troca de intimidades com uma estranha infante foi desnecessária segundos após esse breve diálogo. mas, ora! estava dito! voltei aos meus silêncios e ao meu veríssimo, que aguardava-me cheio de frases e palavras lindas.
o passageiro que assentava-se logo a minha frente possuía um celular extravagante, um fone inútil e provavelmente não conhecia as regras sociais dos ambientes públicos. ele ouvia algum forró. não contente com a própria satisfação, decidiu compartilhar com o resto dos passageiros essa experiência auditiva. tirou o fone, e aumentou o volume. o ônibus, outrora silente e pacífico, tornou-se praticamente uma estação de rádio. as pessoas se movimentavam e cochichavam, mas ninguém se pronunciava.
eu estou na minha fase silente. não queria ser a porta-voz dos outros 39 passageiros. esperei 2 minutos. ninguém se moveu. então o temperamento sobrepujou a situação. vesti a capa da voz suave e grave: "senhor, senhor! pode, por gentileza abaixar o volume?" e ele replicou com um irritante tom médio e invasivo: "quê?" antecedida por um profundo suspiro, repeti a sentença, agora na versão imperativa: "abaixe o volume." e ele concordou, silenciando o pobre cantor, que teve seu público diminuido para 1 ouvinte. pobre, pobre!
voltei ao meu veríssimo. depois recorri as minhas audições e felizmente, não compartilhei com o resto dos passageiros.....
cheguei em casa feliz, insipirada e falante. mas obrigatoriamente, esses meus dias precisam ser quietos.
então, silenciei.

14.11.09

seconde

eu amo essa arabeske...

ps: pra quem não está entendendo a razão da postagem desses vídeos, favor ler 2 posts abaixo..

premier

debussy, pra começar bem a semana.....


só a título de esclarecimento

uma tristeza profunda me invade toda vez que lembro que amanhã, dia 15 de novembro, em campinas, Nelson Freire dará um concerto com a sinfônica da cidade, e tocará o 2º concerto de Chopin...

só mesmo uma debilidade física para me impedir de estar presente...

e é o caso.

portanto, postarei coisas que me alentam o coração nessa hora triste.

5.11.09

dias paulistanos


são paulo. 35 graus centígrados. 17:30 hs. metrô.

desespero, tumulto, falta de ar, dor de cabeça, gente desconhecida E SUADA se enconstando, barras de ferro pegajosas, conversas alheias de norte a sul. o destino é ainda mais apavorante : terminal rodoviário tietê. 

ainda que eu não goste muito de redigir minhas estórias em primeira pessoa, terei de fazê-lo desta vez...não tem como.

A situação ficou ainda mais caótica quando o "trem" a nossa frente quebrou, provocando assim um "engarrafamento subterraneo". Ameacei ter um acesso de claustrofobia, mas minhas orações incessantes me trouxeram tranquilidade, ainda que meu estado psicológico estivesse bambo na linha tênue entre o desespero e a calma. Quando a parada foi "Sé", é que a desgraça se fez...andei pensando, mas não existe nada que eu possa fazer com as palavras que transmita verdadeiramente qual foi o meu desespero naquele momento.
Ao finalmente, desembarcar deste pesadelo, olhei para o relógio: 18:04 hs. Corri em direção ao balcão da "viação bonna vita", e perguntei que horas saía o próximo ônibus para Arthur Nogueira (a má vontade destes atendentes de balcão sempre me impressionou! Ora! Eu, recém chegada de uma visita ao inferno e eles todos envolvidos nas ternura fresca do ar condicionado...um pouco de presteza não faria mal..) Calmamente - acredite, com muitíssima calma - o atendente me informou que o ônibus que eu procurava partira havia exatos 4 minutos, lançando sobre mim um atrevido olhar de pena. 
Saí bufando, mas já sem muitas forças. A noite mal dormida me provocou intensas dores de cabeça durante o dia todo. E agora, ela só aumentava..
No balcão da "cometa", uma fila enorme...paciência, paciência, 123456789 10.........o próximo ônibus para Campinas partiria em 10 min. Nem pensei. Embarquei no ônibus e num sono pesado e profundo...
Não sei se sou sozinha nesta opinião, mas não tem nada mais deprimente do que ser acordada pelo motorista do ônibus, depois que todos os outros passageiros já desceram, já retiraram suas malas, e até uma nova fila de passageiros formou-se em frente ao ônibus. Todos prontos pra embarcar.....odeio, odeio!...mas aconteceu......
Saí correndo, a procura de um ônibus para arthur. Não tinha mais. somente circulares, e para Cosmópolis, a cidade que antecede arthur nogueira...
Mesmo assim, saí atordoada pelas ruas de Campinas. Noite quente, abafada, dia indescritivelmente cansativo. Parei no ponto de ônibus. Pedi informação. Estava no ponto errado. Saí a procura do novo ponto, e acertei. Felizmente, o ônibus ainda não havia passado. Quando finalmente chegou, ao subir as escadas, eu perguntei ao motorista se o ponto final era realmente a rodoviária de Cosmópolis, num tom desesperançoso. Ele respondeu com um sotaque inesquecivelmente interionano : " Não senhora. Este ônibus vai até Arthurrrr Nogueirrrrrra".....
Meu rosto se encheu de uma luz que até fê-lo assustar! Subitamente, todo o cansaço ficou para trás e eu sorria como se estivesse dentro do veículo que me levaria ao céu.

Liguei o ipod, e a música me embalou.Ah, se não fosse ela... Esqueci da dor nos pés, da mala a tira colo, da dor de cabeça, das pessoas grudentas que se encostavam, da falta de ar, do calor e até do sono...

Segui, e segui feliz!

Ah! Eis a cereja do bolo: o circular tinha ar condicionado.....rs.

2.11.09

hoje

não adianta reclamar, espernear...
a saudade é como uma mão cruel que aperta tudo que de vivo existe. 
e permanece. 
o jeito é conformar-se com a presença dessa dor aguda e esperar. 

ainda que seja doloroso viver nessa angústia, a lembrança dos dias que estão por vir serve como consolo sustentando um sorriso oscilante, frágil, mas genuíno.

...

30.10.09

sergipanas


Joana anda solitária por calçadas nordestinas. A tarde cai, e os raios estirados de sol avermelhado invadem o lado esquerdo da ruela e todos os seus adendos. Ela anda em contraste com os nativos. Tem passos apressados, curtos e precisos. 

A calmaria de Aracajú a impressiona a todo momento. As conversas são mais lentas, os fazeres, os dizeres, os abraços, os sorrisos e conseqüentemente, os passos. O ar é úmido e espesso e ela ainda lança mão de algum esforço para sorvê-lo. Os rostos que contempla são todos bronzeados, luminosos e marcados por umas experiências que Joana não descreve mas compreende. O falar é simples, arrastado, manso e incrivelmente alegre. As ruas de calçamento antigo abrigam prédios ainda anteriores ao pavimento, com paredes que aqui ou lá estão por ser refeitas, mas o esboço da arquitetura barroca é imutável. Ela se encanta. E a praia fluvial a contempla azul e sonora. 

É quase noite de domingo e Joana andarilha silente, sentindo uma placidez de alma que desde os tempos de infante não sentia. Pensa uns escritos que logo fogem a memória recente e em seguida pensa outros versos, que novamente se vão com a brisa morna da noite que chega. 

A vontade é pular no falso mar, molhar o corpo, bronzear a pele marcada e limpar os pensamentos antigos, velhos, guardados. Deixá-los lá; de vez e para sempre. Sentir o secar da água nos braços nus e fechar os olhos enquanto as últimas gotas escorrem pelo rosto impermeável. Sorrir um riso livre, cego , sem se preocupar com os expectadores. É desse banho que Joana precisa. E depois dessa breve contemplação e do encontro com o imaginário, Joana volta ás calçadas antigas, andando um andar barulhento, que ecoa na praça deserta.

A noite caiu. Os jardins parecem acordados e escondem os segredos da cidade velha. Assistem aos passos agora apressados. Ela tem um medo breve. Não absorve o que pensa e apenas corre. 

Avista o hotel.

E de volta ao quarto refrigerado, volta a realidade sulista, que definitivamente, não a instiga a pensar e a sentir. Não importa. Joana ainda tem cinco dias. Sergipe ainda tem muito a oferecê-la. 

E outros fins de tarde se repetirão.


Talvez o banho até aconteça.

irresistível


não sei se é esta uma fase poética; o que sei que os versos me encontram a todo instante.
e vinicius já ocupava minhas prateleiras douradas, mas somente nas páginas. agora, ele é felizmente visível.

o poeta que viveu a agonia de ser essencialmente erudito e popular ao mesmo tempo...

a arte desta obra me emociona toda vez que assisto.
apesar da função deste blog não ser a de fazer propagandas, eu abro mais esta exceção.

....

21.10.09

100 sonetos de amor


Ah, Neruda! "Sempre aprontando"... Num dia que já havia amanhecido azul, tive a alegria de me esbarrar com esta pérola numa leitura casual. Melhorou meu dia e precisei compartilhar...

ps: parece que o blogspot não é muito fã das publicações poéticas, então não obedece aos meus comandos de separação dos dois quartetos e dois tercetos, próprios do soneto. Dessa forma, eu peço desculpas pela gafe estética e peço que o leitor faça as devidas divisões estróficas ao ler......hehe.



-XVII-

No te amo como si fueras rosa de sal, topacio
o flecha de claveles que propagan el fuego:
te amo como se aman ciertas cosas oscuras,
secretamente, entre la sombra y el alma.
Te amo como la planta que no florece y lleva
dentro de sí, escondida, la luz de aquellas flores,
y gracias a tu amor vive oscuro en mi cuerpo
el apretado aroma que ascendió de la tierra.
Te amo sin saber cómo, ni cuándo, ni de dónde,
te amo directamente sin problemas ni orgullo:
así te amo porque no sé amar de otra manera,
sino así de este modo en que no soy ni eres,
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía,
tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño.



...

15.10.09

--

e já dizia o querido j. drexler :" nada es más simple, no hay otra norma, nada se pierde, todo se transforma..."

13.10.09

"quase tudo"


o título desta postagem é também o título do livro que estou terminando de ler.
maravilhosamente escrito, é a autobiografia da grande pianista magdalena tagliaferro.
mais adiante, postarei um raro vídeo do 5º concerto de saint-saëns tocado por ela.

leitura que recomendo, e audição.........nem se fala.

12.10.09

uma página já basta


memórias da minha primeira visita a ilha de Paquetá, RJ, provavelmente aos 4 ou 5 anos de idade.


E um dia o pensamento resolveu visitar a ilha. Aquela ilha que já está com as páginas amareladas e umas orelhas rasgadas de tanto esforço pelo resgate da lembrança. E não adianta. Só aquela página permanece escrita. As outras, igualmente envelhecidas, não demonstram nenhum indício de tinta ou de carvão ou de qualquer outro sinal de registro escrito. O jeito foi revisitar a mesma e antiga página.

Número 14.

O interessante é que o pensamento já chega na ilha lá pela metade do dia. Desembarca do bote com as pernas cansadas, como se tivesse caminhado o dia todo, tirado uma porção de retratos, parado e apreciado o novo e agora, os olhos miram as lambujas, pois os andadores já gritam, latejando.

Foi aí que o pensamento encontrou a menina vestida de listras vermelhas e cachos negros domados por um laço de fita. A menina não se dá conta de que o pensamento a encontrou.

Anda com feição de desconforto. Parece que o cheiro das calçadas de pedra marítima não lhe agradam; não pelo fato de serem do mar, mas porque parece que algum turista desavisado esqueceu que um dia, um outro indivíduo de alma infinitamente mais nobre presenteou a humanidade com seu maior invento: o vaso sanitário.
Pois bem. O sujeito de espírito vergonhoso aparentemente não teve tempo de encontrar o caminho devido e fez das calçadas da ilha seu vaso sanitário particular. Aliás, provavelmente este não tenha sido o único. Ultimamente, a proliferação dessa espécie de fulanos tem sido assustadora.E naqueles dias, não era diferente.Daí a razão da testa atrofiada da menina das listras vermelhas, cujos olhos negros pronunciam todas as palavras de baixo calão que ela ainda nem aprendeu, mas que certamente já perambulam por suas veias de brasileira.

E o pensamento deu sorrisos largos ao reencontrar essa menina emburrada.
Foi tão grande seu deslumbramento que perdeu de vista os cachos saltitantes por entre os outros milhares de transeuntes apressados e ranzinzas. A multidão levou a inocente.

Sem saber exatamente por onde seguir seu trajeto, o pensamento ouviu o trote dos cavalos que moviam as charretes turísticas, ao ruidosamente cruzarem as alamedas da ilha.

A página vai acabando.

O pensamento, numa última tentativa, olha para essa charrete que diante dele passa. E vê os olhos da menina pela janela de plástico. Vê as listras vermelhas e o laço de fita envolvendo a cabeleira escura. E a menina, sem saber, o fitou.

Fecha o livro que tantas vezes folheara, entra no bote e volta para o continente.

Mais uma vez, esta página apenas bastou ao pensamento.

30.9.09

paciência


esse ano, resolvi me aventurar pelo universo dos intrumentos melódicos (universo para mim, até então desconhecido, porque sempre toquei instrumentos harmônicos....)
o som macio, gordo e envolvente do cello sempre me atraiu.
mas frustrante é saber que conseguir encontrar o "seu som" como instrumentista é uma arte que exige anos e anos e anos. e o pior é que eu tenho consciência do grau de dificuldade que um instrumento pode chegar..
de qualquer forma, ainda a passos curtos e tímidos, tocar cello tem desenvolvido minha sensibilidade de forma imensa.....
em julho, conheci uma ucraniana que é exímia cellista.....contei das minhas tristezas como pianista aspirante a cellista.....ela perguntou há quanto tempo  me dedicava ao estudo do instrumento, e após a minha resposta inocente (3 meses)...ela soltou uma gostosa gargalhada, e replicou : "vai precisar de paciência. para você COMEÇAR a gostar do seu som, é necessário no mínimo 3 anos"...

depois dessa declaração, me conformei... tudo tem um começo.

ultimamente


não há tempo de pensar, de escrever, de dormir.
os minutos escorrem pelos meus dedos e eu vivo sempre com uma angustiante sensação de urgência, de exasperação.
até as palavras me fugiram. tentei algumas vezes transcrever esses meus pensamentos, mas elas andam arredias, distantes...
o que sobra são as marcas das noites de pouco ou nenhum sono e o corpo cansado, que ainda acompanha o rítmo dos intermináveis compromissos como objeto inerte levado pela correnteza que o rio bravio carrega.
o momento em que finalmente me deito e suspiro de exaustão me lembra que não posso fazer tudo o que gostaria e principalmente, não posso fazer tudo que todos querem de mim.

por isso, minhas desculpas pela ausência nos relatos...

semana que vem, espero respirar ares mais plácidos.