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24.6.14

arte das terças: johannes vermeer

muitas terças depois, e o "arte das terças" está de volta.

em 2012, fiz um relato sobre minha visita ao museu do louvre. nele, falei rapidamente sobre minha passagem pela ala das pinturas holandesas.

pois bem! minha maior curiosidade em ir ao louvre sempre se deu devido a vontade de ver ao vivo as pinturas de johannes vermeer, que é o nosso pintor de hoje.

foi um artista holandês do século 17, e por séculos, intrigou a crítica e o público interessado em arte pela luminosidade incomum que suas pinturas têm. essa é uma característica que se repete invariavelmente em sua obra.

outro traço intrigante é a quantidade de detalhes e de cores que geralmente o olho humano não pode perceber! tudo isso, ele conseguia incluir em suas telas. nenhum de seus contemporâneos conseguiu reproduzir essa riqueza de detalhes e matizes, que faz com que os quadros de vermeer pareçam imagens fotográficas.

eis aqui algumas de suas obras mais famosas:

girl with a red hat

os próximos dois estão no louvre, e foram os que eu vi quando fui :)

the lacemaker

the astronomer
the music lesson

women with a water jug

e o mais famoso de todos (tem até filme sobre esse, que diga-se de passagem, é ma-ra-vi-lho-so!):

girl with a pearl earing

quando cheguei ao museu do louvre, passei pela monalisa. mas tinha tanta, tanta gente, que fui procurar refúgio na ala das pinturas holandesas, onde vermeer reina! :) 

essas foram as fotos que eu tirei dos quadros dele expostos lá.
são bem pequenos (isso foi decepcionante), mas realmente a luz que ele conseguia trazer para as suas telas é impressionante!!!!




a verdade é que há tempos, estudiosos desconfiam que vermeer era um intelectual, que se utilizou da mais avançada tecnologia da época para aprimorar sua técnica. o que sempre se soube, é que ele usava a camera obscura, que seria um ancestral da câmera fotográfica que temos hoje. há livros e estudos publicados sobre o assunto.

mas um inventor sagaz chamado tim jenison foi mais a fundo, e resolveu ir `as últimas consequências para descobrir a técnica que vermeer usava!!! essa jornada começou em 2008 e durou 5 anos, transformando-se num filme chamado "tim's vermeer", lançado semana passada :)

tive a alegria de assisti-lo anteontem (meu pai comprou e assistimos juntos), e fiquei absolutamente embasbacada com a inteligência desse inventor!!! no filme, ele alega que vermeer não usava somente a camera obscura, mas usava uma combinação de lentes, luz e espelhos para conseguir pintar tão perfeitamente quanto uma imagem fotografada! para provar isso, tim jenison reproduziu fisicamente o cenário do quadro "the music lesson", e mesmo sem ser pintor, se propôs a pintar o mesmo quadro usando essa técnica!!!! e CONSEGUIU!!!!!!!! é impressionante!!!!!!

vale MUITO a pena assistir!!!

eis aqui o trailer :)



o ponto de tudo isso é provar que a tecnologia e arte não são rotas opostas, e podem sim, andar de mãos dadas, se o objetivo é atingir o melhor resultado possível!

e palmas pra johannes vermeer, que no século 17, conseguiu desenvolver uma tecnologia de pintura que consagrou sua obra, diferenciando-o de tudo o que existia em seu tempo! :)

sobre a copa...


casei com um fanático por futebol.
pra mim, é uma novidade lidar com essa relação homem-futebol, porque na minha família imediata, os homens pouco se interessam por essa arte; uma manchete sobre os resultados lhes é o suficiente.

nesses últimos dias, aprendi quem é o bom cabeceador da holanda, sei qual jogador chileno corre mais rápido e quais são os jogadores da alemanha...

os jogos têm se tornado um motivo pros brasileiros da área se juntarem e torcerem (apesar de a maioria substituir as antigas queixas `a política por queixas `a seleção que foi escolhida pelo felipão...)!

de qualquer maneira, eu grito muito.
e faço comentários bem femininos, que os homens geralmente não gostam...rs!

mas meu coração pulsa junto com o povo brasileiro.
e é tão bom ver esse povo sendo patriota!
pelo menos de 4 em 4 anos...

:)

12.2.14

bonito



a beleza pode nos passar pelos olhos, enchê-los de vida;
se não há nada de belo por antes destes, é morte que reina quando a beleza se vai.
mais bonito que a própria beleza é a arte de fazê-la perene, em alguém, naquilo, nisso.

beleza por si não adianta nada...
ela vem e vai.
a vida mais vivida é quem melhor apresenta essa tristeza de verdade.

nem tanto a beleza de traços, de olhos, daquelas que desenhista gosta.
mas de cores, de ares, instantes...

nada mais lindo que ver a beleza passar... e ser tudo ainda tão bonito.


25.1.14

das coisas que nos inspiram a viver mais e melhor

título longo.

numa dessas manhãs passadas, acordei e percebi no twitter um "parabéns" do perfil do @SteinwayAndSons ao documentário "the lady in number 6" pela indicação ao oscar.

fui ler a respeito, e sinceramente, uma das coisas mais inspiradoras que já vi nos últimos tempos.

trata-se de um retrato da pianista mais velha do mundo, e também a mais velha sobrevivente do holocausto.

109 anos, e nesse trailer, toca a invenção a 2 vozes de bach n.8 com uma destreza incrível... faz até o toque que é típico do barroco.

ela também é só sorrisos. 
e reclama que todos a sua volta são tão sérios...

que inspiração.
que inspiração...


20.1.14

claudio abbado


morreu hoje aos 80 anos, o famosíssimo maestro italiano, que regeu a orquestra filarmônica de berlim (considerada a melhor do mundo) de 1990-2002! conhecido pela música refinada que produzia e seu vasto repertório sinfônico...

eu não tinha um sentimento forte sobre sua pessoa, mas reconheço sua competência musical e importância no mundo erudito...

aqui um artigo falando sobre sua morte, e abaixo, um vídeo de uma performance completa do requiem de mozart, que foi apresentado em salzburg em memória de 10 anos da morte do seu maestro antecessor e mentor na orquestra filarmônica de berlim: hebert von karayan (esse foi mais mito ainda, e muito mau também...rs)!

sugestão: assita a partir do minuto 0:45, que é o começo do benedictus, com um quarteto MA-RA-VI-LHO-SO! irretocável... e a regência emocionada de abbado no final é linda de assistir também!

1.7.13

arco-íris


experimentando todas as suas cores...
e entendendo que "qualquer amor já é um pouquinho de saúde"...
aliás, se é assim, virei imortal :)

"a terceira margem do rio"...

hoje foi noite de guimarães rosa pra mim...

reli uns pedaços favoritos de "sagarana" e li pela primeira vez o conto do título aqui...
tão triste quanto bonito.
mas essas duas coisas me assaltaram com tanta força, que acho que não consigo dormir.
e amanhã tenho médico cedo...

vou copiar e colocar tudo aqui.
uma escrita fina e regional.
tão sensível que a leitura não é um mergulho; é um afogamento.

se você não quer esse sentimento duplo de tristeza e encanto, não leia.


A Terceira Margem do Rio
Guimarães Rosa

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.

Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.

Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.

No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.

Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o 'dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.

A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.

Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.

Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — "Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim..."; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.

Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.

Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.

Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.

Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.

Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.

Texto extraído do livro "Primeiras Estórias", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1988, pág. 32, cuja compra e leitura recomendamos.

9.4.13

eu estava lá!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

foi tudo registrado em fotos e palavras aqui.
agora eu achei o registro em imagens...

que dia...
que memória!

8.4.13

"the app you've been waiting for"...

sim.

eu, que escrevo a música a mão, ali no piano, apago as notas erradas, rasgo o papel ou danifico uma ou duas linhas da pauta com a falta de experiência provando não ter a habilidade de mozart de arrumar a grafia musical na cabeça antes de passar pro papel... e no fim das contas nunca transferindo nada pro computador.... sim! eu realmente estava esperando por esse app, que será lançado no segundo semestre desse ano de 2013.

escrever a mão digitalmente...
obrigada tecnologia, por atender aos mais lerdos.
sempre tive inveja daqueles que conseguiram manter a criatividade no mesmo nível mesmo com a transição do manuscrito (obrigatório) para o digital...

agora, a inveja acabou.
:)



12.3.13

.

a vida é uma selva.
infelizmente, não somos animais. selva é feita pra bicho, não pra gente.
cada vez que me deparo com essa conclusão, me dá uma tristeza...

6.3.13

os homens da religião


se dormi 2 horas essa noite foi muito.
voo internacional cedo de manhã é triste e feliz.
triste porque isso significa cruzar a cidade de são paulo antes das 6 am (zzzzzz) e feliz porque as 5 da tarde, eu estarei em casa, lá em washington...

as 5 am, o taxista passou pra me buscar, não menos sonolento do que eu.
meu plano era entrar no carro e dormir profundamente os 40 minutos sem trânsito de marginal tietê... mas a conversa com o motorista aconteceu, e aconteceu tanto, que aqui estou, ainda acordada.

qual a sua profissão?
cantora... venho ao brasil pra cantar.
nossa! 
silêncio.
você canta aonde? em bares? festas?
não, não! sou cantora de música cristã.
ah! música gospel?
isso!
então você canta mais em igrejas, né?
exato!

e assim se desenrolou uma enorme conversa de um dito "não religioso" que sabia tudo, absolutamente TUDO sobre as fraudes de alguns dos líderes religiosos brasileiros, que de vez em sempre aparecem na televisão envolvidos em escândalos... ou então, num jatinho particular, com dezenas de pinduricalhos de ouro e fazendas com milhares de cabeças de gado...

isso tudo o taxista me contou em detalhes.
contou o nascimento de 3 denominações evangélicas no brasil... como elas aconteceram, como se tornaram conhecidas e com muita indignação, ele citava escândalo atrás de escândalo, sempre transtornado com a idéia de dízimo, de oferta... foi quase uma aula de história denominacional brasileira.

chegando ao aeroporto, já não havia muito mais tempo.
eu com o coração apertado. que coisa triste essa bagunça, essa má impressão, e pior, a generalização inevitável.

ele arrematou: "não sou religioso, mas acredito que a religião seja uma coisa boa. ajuda as pessoas e faz bem a muita gente... hoje em dia eu não preciso da religião, mas se um dia eu precisar, eu viro religioso..."

desabafos a parte, estava ali alguém sincero e absolutamente descrente, cego pelos homens da religião, e não pelo Deus da religião.

falei pouco sobre mim, minhas crenças. não porque eu não quisesse, mas não deu tempo... o que aconteceu ali foi um imenso desabafo.
o trajeto ao aeroporto que geralmente é eterno, foi curto hoje.
meio sem jeito, e com MUITA raiva por não ter um cd meu na bolsa (como geralmente tenho), eu disse: "laura morena. se o senhor tiver tempo, entra no youtube depois e assiste. há vídeos lá."
ele parou o carro, pediu pra eu repetir o nome, achou um bloco de papel e anotou.
"é pra eu não esquecer. vou assistir sim".
e eu saí me desculpando novamente por não ter um cd na bolsa (que raiva!)...

assisti o carro partir, e pedi misericórdia `Aquele que personifica essa palavra.

misericórdia pelos erros, pelos enganos, e pelos sinceros que precisam de óculos para enxergar o Deus além das placas de igreja, do dízimo, das fraudes... pedi que Ele lhes abrisse os olhos, o coração fechado...

nem sei se ele vai ouvir algo que canto.
não sei se algum dia ele se interessará por igreja alguma, por Deus...
mas sem o tempo suficiente, a única coisa que pude deixar foi a música, pra que ela diga o que eu não consegui... seria desolador partir em silêncio.

meu coração tem aquela esperança quase pueril.
quem sabe, ele compreenda o amor... é na realidade o que eu mais queria.
quem sabe...

22.2.13

a maturidade

poucos dias atrás, eu postava embasbacada sobre esse menino, yoav levanon, que me arrancou suspiros com sua música incrível aos 7 anos de idade.

fuçando, encontrei este outro vídeo.

aqui, ele se apresenta com um porte diferente, muito seguro, numa peça muito mais longa (um CONCERTO pra piano e orquestra), do alto dos seus 8 anos de muito amadurecimento!!

rs...

o incrível é que realmente, em 1 ano, como o som amadureceu... é fácil chegar a essa conclusão não só pela performance do concerto, mas em nível comparativo, é fica claro esse amadurecimento durante o bis, em que ele tocou o impromptu op. 29 n.1 de chopin: o mesmo que tocou nesse primeiro vídeo que postei!
os deslizes são mínimos, e mesmo quando eles ocorrem, yoav parece se enfurecer e faz da performance seguinte algo ainda mais surpreendente. tem muito mais alma e a peça já é mais "dele" do que antes...
de modo geral, ele tende a correr, tocar tudo mais rápido. não só porque ele pode, mas porque isso é típico da idade. nota-se bastante isso no terceiro movimento do concerto...
mas no segundo movimento, quase choro!
que alma, que alma...

segue aí, o concerto para piano e orquestra de joseph haydn em ré maior, por um menino de o-i-t-o anos de idade, que não simplesmente toca, interpreta!

12.2.13

não pode ser desta terra...

isso é sério.
C-O-M-O? 

rs...
yoav levanon, pianista de uma sensibilidade incrível, e de 7 anos de idade.

esse prodígio israelense levou a medalha de ouro na competição AADGT, e nesse vídeo, toca chopin como gente grande.

a música que ele faz é linda, mas mais bonito ainda é como ele se dá o devido tempo de entrar nela, ou de ouvi-la, antes de produzi-la. 
achei isso a melhor coisa do vídeo. 
que momento maravilhoso ele cria antes de tocar uma sequer nota.

assista!
assista mesmo!

a late quartet

a pérola sugerida pela minha mãe no sábado a noite.

um filme sobre um quarteto de cordas e suas duas facetas: a complicada obra escrita por beethoven nos últimos anos de sua vida (op.131) e dificílima de ser tocada, e os quarto instrumentistas, que por anos conviveram dentro da "selva" da música, lidando com a inveja, ambição, sensibilidade e personalidade de cada um.

pura sofisticação e verdade.
esse filme expressa e-xa-ta-men-te o que é o universo musical.
e cá pra nós, o título "a late quartet" é simplesmente genial!
recomendadíssimo.


grammys 2013


a festa suprema da música.
um luxo, como sempre...

não tenho tantos comentários sobre a ocasião em si...
só a ressalva de que adorei o vencedor da categoria "record of the year"... e CLARO, e i-men-sa alegria ao saber que a partir de agora, professores de música serão premiados!
que coisa linda esse reconhecimento. quem é professor sabe como são árduas as horas passadas numa sala de aula, e como pode ser desafiador tentar inspirar ao invés de só ensinar... mas é possível.

fica aqui meu abraço coletivo `a todos aqueles que se dedicam a essa tarefa bonita, e também aos diretores do grammy, que se sensibilizaram e reconhecem que por trás de todo bom músico, existe um excelente professor.

:) :) :)

13.1.13

coco avant chanel

filme do sábado a noite, voilà:


não é segredo pra ninguém que uma grande marca do cinema francês é a linguagem visual, correspondente a uma descrição, muito mais do que a fala e o diálogo em si.

a atriz audrey tautou é inebriante. quem não se apaixonou por ela em amélie poulain? seu olhar é quase um texto, tanta é a comunicação.

nesse filme, interpretando coco chanel, ela foi novamente brilhante. não gostei tanto da abordagem do filme acerca do início da vida de coco chanel, mas a interpretação de audrey tautou é irretocável... como alguém consegue mudar tanto o diálogo só pelo olhar? 

a fotografia do filme é quase uma pintura, as atuações são ótimas... 
como disse, não gostei muito do roteiro. acho que muitos aspectos da estilista que enriqueceriam o filme foram ignorados, mas...



é bonito.

vale `a pena mesmo assim... :)


o próximo da lista é "coco chanel e igor stravinsky", que aborda o suposto romance dela com o  revolucionário compositor russo...
aí, por alguma razão, a temática fica ainda MAIS interessante... :)

10.12.12

ravel, o rei (inclusive da transcrição)

semana passada, fui ao kennedy center duas vezes. fazia tempo que não ia (desde junho...rs!).
dupla alegria. esse post será dedicado ao primeiro concerto q assisti, e o segundo concerto, eu descrevi brevemente aqui.

este concerto, entre outras coisas (concerto pra piano de mozart n. 13, la mer de debussy, etc.) teve como parte do programa uma obra maravilhosa de maurice ravel intitulada ma mere l'oye.
ravel é o rei da orquestração, como já mencionei aqui no blog...
compositor francês que teve a capacidade de fazer com que tudo o que escrevesse soasse lin-do!

ouvi a versão orquestral do ma mere l'oye durante o concerto, e fiquei incomodada o tempo todo, com a sensação de que já a conhecia profundamente há tempos. é uma obra famosa de ravel, e eu estava certa de que já a havia ouvido, mas em certos momentos, eu cantava algumas melodias, como se já tivesse ouvido muitas e muitas vezes e internalizado partes da obra... foi então que, lendo as notas do programa, bam! lembrei...

essa peça foi originalmente escrita para dois pianos.
depois, o próprio ravel transcreveu isso, do alto da sua mais refinada virtuosidade, para orquestra.
ele fez isso com várias de suas obras...

e obviamente, eu já havia ouvido nelson freire e martha argerich tocando isso!!..rs... por isso conhecia tão bem...
na realidade, sempre que os dois fazem concerto a dois pianos juntos, tocam essa peça como bis.

então resolvi compartilhar as duas versões.

no primeiro vídeo só piano (que nessa versão está a 4 mãos e não a 2 pianos) e orquestra no segundo.
duas leituras, duas interpretações;
uma obra e um compositor :)





a propósito, nessa noite quem regeu foi um maestro convidado, 36 anos e eslovaco. um gênio! sua performance foi impecável e absolutamente impressionante! chama-se juraj valcuha. viva o leste europeu e a sua música!! :)

e se houver?

li o livro de uma fulana, e pensei nessa avalanche de manifestações artísticas nascendo, surgindo a todo segundo, de todos os cantos...
conversei com outro fulano a respeito, e falei dessa coisa de escrever, de mostrar o que foi escrito, compartilhar. ele atestou: "não há nada de errado em publicar, contanto que haja algo a ser dito"...
pensei, pensei em todo o resto, e cheguei `a triste conclusão que esse nem sempre é o caso.

tanta gente querendo um lugar ao sol em nome da arte.
será que há tanto a se compartilhar? será que realmente há algo a ser dito?
a minha impressão, por vezes, é que o mundo está cheio de vaidade andando por aí disfarçada de generosidade... abrir a alma oculta e colorida de artista é claramente um ato de coragem.
`as vezes, nem sei se é o certo faze-lo por inteiro; mas há um sentimento de culpa em faze-lo pela metade...
são poucos os que genuinamente desejam ser levados a enxergar mais detalhes do mundo, da existência e da própria alma e de absorver o que se oferece. a esses, vale uma vida cantar, falar e derramar o que é tão guardado.
seriam as minhas palavras um barco diferente no infinito de embarcações que espalham a arte?
dificilmente...
é por isso que é tão árduo.
é cansativo equilibrar a praticidade e a vontade de viver enxergando e experimentando as coisas que vão além daquilo que é apenas necessário `a sobrevivência.
o corpo tem vida, precisa de alimento.
a alma também funciona assim... e por que alimentá-la é tão confuso, até mal interpretado?
o relógio corre levando a única vida que temos nessa terra...e ela passa assim, com tanta rapidez, que se não houver um certo cuidado, é quase imperceptível.

o que oferecer?
e mesmo que haja algo a se dizer, como faze-lo compreender?
tanta cegueira, e tanto cego guiando cego.
o silêncio é sempre mais fácil, mas se fosse assim, o mundo seria quieto, cheio de cabeças pensantes e bocas fechadas.
é sim, um bom impasse.
ver demais, ver de menos...
será que um par de óculos resolve?

fernando pessoa e a felicidade


talvez seja clichê postar assim, uma série de pensamentos já ditos, já publicados. mas é que tentei falar por mim e não consegui...
então, fernando pessoa me socorreu :) 

"Ser feliz é encontrar força no perdão, esperanças nas batalhas, segurança no palco do medo, amor nos desencontros. É agradecer a Deus a cada minuto pelo milagre da vida." 
"Toda a poesia - e a canção é uma poesia ajudada - reflete o que a alma não tem. Por isso a canção dos povos tristes é alegre e a canção dos povos alegres é triste."
"Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens."

26.11.12

ela no piano e a orquestra na cabeça

olha que interessante!

já ouviu alguém dizer que músico ouve coisas que o resto da população não ouve?
é verdade...não é só imaginação. é ouvir mesmo!

aqui, um exemplo interessante da pianista valentina lisitsa tocando parte do primeiro movimento do concerto n. 2 pra piano e orquestra de rachmaniov, e depois, a versão dela com a orquestra.

assistindo um outro documentário, ela conta que estava prestes a fazer uma gravação desse concerto com a london symphony orchestra, e antes do dia da gravação, resolveu gravar e postar esse primeiro vídeo no youtube pra que o regente da orquestra, michael francis, assistisse e entendesse sua interpretação e sua leitura da obra. ela conta que ouvia as partes da orquestra em sua mente, e então interpretava a sua parte solo...

achei incrível...

e essa estratégia funcionou muito bem!
o maestro compreendeu a sua linguagem e no dia da gravação, tudo fluiu melhor...

assista a versão com orquestra mental e a versão com orquestra real...rs!



(a qualidade desse tá meio ruim, mas dá pra ouvir bem :)