1.10.10

estória


faz pouco tempo, entendi.

sempre estudei piano. sempre. desde que tenho memórias. tinha uns 4 anos quando comecei.
lembro da primeira peça que estudei "ciderela no baile". toco até hoje. não que tenha passado tanto tempo assim, mas lembro.
mas eu enrolei a professora pra tocar isso. demorei a estudar, ia para as aulas com medo das broncas por não ter praticado o suficiente...
aos 8 anos, mudei de cidade. o piano me seguiu.
comecei a conhecer uns compositores famosos, toquei o hino dos desbravadores no JA.
cidade pequena, poucos músicos. os de casa viajavam.
o piano dormia comigo. literalmente, no meu quarto. mas nossa relação ainda era obrigatória. eu não largava porque gostava de possuí-lo, de usá-lo. não queria conhecê-lo. é egoísta, eu sei! mas era assim.
na adolescência, fui pra um colégio. sem pai, sem mãe, éramos só o piano e eu. mas eu já não tinha coragem de ignora-lo. por mais que não estudasse, que as vezes fugisse das aulas e tirasse o telefone do gancho para a professora não me achar, eu ainda o queria e talvez nem soubesse o porquê.
e assim foi por 4 anos. fui para os estados unidos, pré-universitária, aprendendo inglês com a melhor amiga, trabalhando, comprando carro de 1000 dólares. tanta coisa nova.
o piano ficou, pela primeira vez. já fazia 13 ou 14 anos que ele, mal-e-mal, me pertencia, me conhecia.
depois de uns 5 meses, comecei a sentir falta. a ficha começou a cair e a separação doía.
voltei para o brasil, casa dos pais. o piano lá estava
o reencontro foi frio, distante. já não tinhamos as mesmas conexões, o mesmo diálogo.
e eu sentia uma saudade aguda, uma vergonha arrependida por tê-lo negligenciado. ele, orgulhoso. não suavizou nada.

dizem que relacionamentos muito longos são desgastantes. e que é preciso se reapaixonar várias vezes.
acho que sempre fui apaixonada pelo piano. mas só descobri isso no ano de 2008, segundo ano de faculdade. e quem me mostrou isso foi o Nelson.
por essa razão ele me é tão caro! muitos que me rodeiam acham que eu tenho essa paixonite adolescente pelo pianista (e eu sei que quando falo nele, soa assim mesmo). mas na realidade, foi ele quem me fez entender que eu era apaixonada no mais alto grau por algo que sempre esteve comigo.
e eu comecei a querê-lo, comecei a ouvi-lo. pesquisava, pensava.
desde esse dia, eu assumi esse amor. e pronto. mas isso foi muito mais ideológico do que prático. já era tarde demais. durante essas desavenças com o piano, o canto tomou um lugar que eu nem sabia que existia em mim e passou a me pertencer de uma forma muitíssimo mais fácil, natural.

e veja como são as coisas. agora, eu sou a mal amada. o piano virou meu amor impossível. apesar de estarmos em bons termos, parece guardar uma mágoa. é uma pena eu não ser pianista, apesar dessa história. e não o sou, admito. é o que mais ouço, é o que mais pesquiso. conheço muito. mas não o domino. meus parâmetros interpretativos tornaram-se inatingíveis, ainda mais pelo fato de eu ter um pai que respira e toca com a mesma facilidade. o amor deles é recíproco, inquebrável. já o nosso, tão frágil.... injusto esse mundo!

esses dias atrás, inventei de dar um recital. desastroso. pensei que ele levaria em consideração todos os anos de histórias. mas agiu como um desconhecido. eu que já me debrucei e derramei minha alma por tantas horas sobre ele. já confessei e exibi meus mais íntimos sentimentos e emoções. isso é no mínimo ingratidão. tocar bonito para si não adianta.
a platéia me assustou e o piano estava distante, distante. parecia uma criança assustada. ele me olhava, vingativo.

foi quase o nosso fim. quase. eu pensei seriamente em terminar de vez. de que adianta? ele nunca me amará da mesma forma.
mas amor não se explica. e eu perdoei, esqueci.

agora sou cantora, professora. tudo menos pianista. resolvi que vou estudar umas peças que gosto e torná-las minhas. para a vida. toda vez que ensino sobre um compositor, toco algumas músicas de sua autoria. enriquece a aula, me instiga!

e assim, nossa relação se estabilizou. é melhor assim. sem excessos, mais equilíbrio.
eu entendendo todas as minhas deficiências e limitações e admitindo que preciso dele como musicista.

está aqui do meu lado, me olhando.
ainda não fui dar bom dia.

por isso, se me dão licença...




12 comentários:

  1. Esse post me tocou profundamente.. mas não posso chorar aqui na recepção da escola... acabei de finalizar a maquiagem... borraria tudo... cada que passa te acho mais incrível...

    ResponderExcluir
  2. laura...
    este post me faz recordar passagens da minha vida. diversos momentos meus de estudo ao tão amado instrumento passaram de forma muito tênue a este texto - tão bem escrito, diga-se de passagem -, momentos esses que também deixei-o de lado por achar que naquele instante algo bonito e sonoramente belo não poderia ecoar dele,mas também estou aprendendo a dedicar-me a ele cada vez mais, por percebo que muito do que esta dentro de mim pode ser refletido ao soar de cada acorde...

    Deus abençoe

    ResponderExcluir
  3. ops... sim.. sim... desculpa... a cada "dia" que passa...

    ResponderExcluir
  4. Ler as suas declarações de amor pela música logo de manhã são uma inspiração!
    Tanto amor e dedicação são necessários ao ser humano em qualquer área da vida.
    Espero que você continue "desabafando" com mais frequência...
    Tenha um ótimo dia!

    ResponderExcluir
  5. Laura, sei exatamente como você se sente! Vivi exatamente a mesma coisa em minha vida! Me identifiquei 100% quando você disse: "...durante essas desavenças com o piano, o canto tomou um lugar que eu nem sabia que existia em mim e passou a me pertencer de uma forma muitíssimo mais fácil, natural."

    Chega achei engraçado quando você disse que fugia da professora de piano... eu fazia a mesma coisa! Ela ia lá em casa e eu estava voltando da escola. Quando via o carro dela do lado de fora, ficava escondido, esperando ela terminar de dar aula pra meu irmão e achar que eu não ia chegar pra ir embora...

    Mas sou apaixonado pelo piano, assim como você! Hoje sou cantor, compositor, arranjador (vocal e instrumental)... mas só arranho no piano... amo tocar... mas toda vez que tento (principalmente em público), sempre faço uma besteira... me identifiquei total! Compartilho a sua ângústista!

    Mas... vamos em frente com o que temos para servir ao SENHOR! Pois isso é o que mais importa! Um grande abraço e Feliz Sábado!

    ResponderExcluir
  6. nossa, vc me traduziu... emocionou..

    ResponderExcluir
  7. Tive que rir. vc não tem noção. adorei, lembrei de mim enganando meus professores de piano. eu tbm não atendia o telefone. cheguei até esconder o piano. e hje vivemos uma relação Estável. só não me peça pra tocar em público, sinto como se perdesse meus dedos e os lindos desenhos formados pelas notinhas gosrdinhas na pertitura virassem formigas devoradoras.

    ResponderExcluir
  8. mas que pianinho orgulhoso, heim? rs
    imagino as frustrações que vc deve ter sentido inúmeras vezes ao tentar, com toda vontade do mundo, executar alguma obra e, de repente, não dá certo.
    minha experiência com o piano foi bem curta... estudei no Conservatório de Música de Sergipe na minha infância durante uns 4 anos... na turma de musicalização I iniciamos com a flauta doce - de praxe. na hora de escolher o instrumento pra aprender mesmo, decidi pelo piano, assim como minha irmã, minha prima e sua irmã. não me recordo muito bem se tinha grande dificuldade com ele, mas desde que ingressei no meio musical, poderiam surgir obstáculos, eu não ligava. a música sempre me moveu. curiava as aulas de outros alunos enquanto ainda não era a hora da minha, quando aconteciam eventos no Auditório Villa-Lobos - auditório do conservatório - sempre dava um jeito de entrar para saber o que estava acontecendo. enfim, aquele ambiente musical me deixava inquieto, ansioso.
    lembro-me de minha última professora de piano: uma senhora de mais de 60 anos, baixinha, de cabelos curtos e de óculos. seu nome é Mª Olívia. Até conhecê-la melhor, as aulas eram torturantes para mim. provavelmente por isso desisti do piano e ingressei na clarineta. ela segurava meu polegar e batia nas teclas do piano com força. assustador, não? ainda mais pra uma criança.
    hoje sinto muita falta de saber tocar piano. dos quatro, só minha prima mais velha continuou nos estudos musicais. hoje canto no grupo do qual ela é pianista. sinto uma vontade enorme de pegar uma partitura e começar a tocar. hoje tenho interesse em tocar cello. mesmo assim, o piano ainda tem seu lugar em mim e, com certeza, nunca deixará de ter.

    beijos, Laura

    ResponderExcluir
  9. Oi, Laura, passo sempre por aqui. Gosto dos seus posts, pois temos muitas coisas em comum. Ao ler este post, me lembrei de um filme que assisti recentemente "A Última Música", vc já viu? Aproveito e peço pra vc dar uma passadinha no meu blog tb (http://islanacosta.blogspot.com). Bjs e que o Papai do Céu continue abencoando seu ministério musical.

    ResponderExcluir
  10. Me vi aqui...impressionante...achava que fosse só eu! Gostei demais.

    ResponderExcluir