25.6.14

resquícios de noiva

aqui e ali, vou encontrando coisas pequenas, mas que me dão uma saudade grande (que passa rápido...rs!) de ser noiva.

uma vez na vida, e depois, a gente olha e relembra :)


do nosso lar...


tão bom ver o quebra-cabeça se completando aos pouquinhos :) :) :)

24.6.14

arte das terças: johannes vermeer

muitas terças depois, e o "arte das terças" está de volta.

em 2012, fiz um relato sobre minha visita ao museu do louvre. nele, falei rapidamente sobre minha passagem pela ala das pinturas holandesas.

pois bem! minha maior curiosidade em ir ao louvre sempre se deu devido a vontade de ver ao vivo as pinturas de johannes vermeer, que é o nosso pintor de hoje.

foi um artista holandês do século 17, e por séculos, intrigou a crítica e o público interessado em arte pela luminosidade incomum que suas pinturas têm. essa é uma característica que se repete invariavelmente em sua obra.

outro traço intrigante é a quantidade de detalhes e de cores que geralmente o olho humano não pode perceber! tudo isso, ele conseguia incluir em suas telas. nenhum de seus contemporâneos conseguiu reproduzir essa riqueza de detalhes e matizes, que faz com que os quadros de vermeer pareçam imagens fotográficas.

eis aqui algumas de suas obras mais famosas:

girl with a red hat

os próximos dois estão no louvre, e foram os que eu vi quando fui :)

the lacemaker

the astronomer
the music lesson

women with a water jug

e o mais famoso de todos (tem até filme sobre esse, que diga-se de passagem, é ma-ra-vi-lho-so!):

girl with a pearl earing

quando cheguei ao museu do louvre, passei pela monalisa. mas tinha tanta, tanta gente, que fui procurar refúgio na ala das pinturas holandesas, onde vermeer reina! :) 

essas foram as fotos que eu tirei dos quadros dele expostos lá.
são bem pequenos (isso foi decepcionante), mas realmente a luz que ele conseguia trazer para as suas telas é impressionante!!!!




a verdade é que há tempos, estudiosos desconfiam que vermeer era um intelectual, que se utilizou da mais avançada tecnologia da época para aprimorar sua técnica. o que sempre se soube, é que ele usava a camera obscura, que seria um ancestral da câmera fotográfica que temos hoje. há livros e estudos publicados sobre o assunto.

mas um inventor sagaz chamado tim jenison foi mais a fundo, e resolveu ir `as últimas consequências para descobrir a técnica que vermeer usava!!! essa jornada começou em 2008 e durou 5 anos, transformando-se num filme chamado "tim's vermeer", lançado semana passada :)

tive a alegria de assisti-lo anteontem (meu pai comprou e assistimos juntos), e fiquei absolutamente embasbacada com a inteligência desse inventor!!! no filme, ele alega que vermeer não usava somente a camera obscura, mas usava uma combinação de lentes, luz e espelhos para conseguir pintar tão perfeitamente quanto uma imagem fotografada! para provar isso, tim jenison reproduziu fisicamente o cenário do quadro "the music lesson", e mesmo sem ser pintor, se propôs a pintar o mesmo quadro usando essa técnica!!!! e CONSEGUIU!!!!!!!! é impressionante!!!!!!

vale MUITO a pena assistir!!!

eis aqui o trailer :)



o ponto de tudo isso é provar que a tecnologia e arte não são rotas opostas, e podem sim, andar de mãos dadas, se o objetivo é atingir o melhor resultado possível!

e palmas pra johannes vermeer, que no século 17, conseguiu desenvolver uma tecnologia de pintura que consagrou sua obra, diferenciando-o de tudo o que existia em seu tempo! :)

uma saudade "matada"...


a semana passada foi uma das mais cansativas dos últimos tempos.
mas nela, matei a saudade de cuidar, e de ensinar crianças.

quando acabou a semana, senti um aperto no coração, e uma saudade precoce.

e então, eu soube que esse amor vai me acompanhar pra sempre, por onde eu for...

sobre a copa...


casei com um fanático por futebol.
pra mim, é uma novidade lidar com essa relação homem-futebol, porque na minha família imediata, os homens pouco se interessam por essa arte; uma manchete sobre os resultados lhes é o suficiente.

nesses últimos dias, aprendi quem é o bom cabeceador da holanda, sei qual jogador chileno corre mais rápido e quais são os jogadores da alemanha...

os jogos têm se tornado um motivo pros brasileiros da área se juntarem e torcerem (apesar de a maioria substituir as antigas queixas `a política por queixas `a seleção que foi escolhida pelo felipão...)!

de qualquer maneira, eu grito muito.
e faço comentários bem femininos, que os homens geralmente não gostam...rs!

mas meu coração pulsa junto com o povo brasileiro.
e é tão bom ver esse povo sendo patriota!
pelo menos de 4 em 4 anos...

:)

28.2.14

o mundo da música chora por vc, paco...


pude assisti-lo em 2012....
e esses dias, ele se foi.

que semana triste!

fica aí, a minha lembrança em vídeo... um vídeo tremido e ruim, e uma música que nunca mais existirá...



12.2.14

pra quinta


faz tempo que não assisto um concerto, daquele jeito que eu tanto fiz...
pois quinta, assisto anne-sophie mutter.
que presente ouvir seu violino impecável na noite de véspera de dia dos namorados no hemisfério-norte!

um email perdido, quase fadado ao lixo me alertou sobre a presença da violinista por aqui.
e o grande sinal de desconto no preço foi alerta maior...

com as boas mudanças, esse é um hábito que tanto gosto, pra manter pela vida.

quinta será um dia ainda mais feliz, se é que isso é possível :)


bonito



a beleza pode nos passar pelos olhos, enchê-los de vida;
se não há nada de belo por antes destes, é morte que reina quando a beleza se vai.
mais bonito que a própria beleza é a arte de fazê-la perene, em alguém, naquilo, nisso.

beleza por si não adianta nada...
ela vem e vai.
a vida mais vivida é quem melhor apresenta essa tristeza de verdade.

nem tanto a beleza de traços, de olhos, daquelas que desenhista gosta.
mas de cores, de ares, instantes...

nada mais lindo que ver a beleza passar... e ser tudo ainda tão bonito.


25.1.14

paredes vestidas


mesmo antes de casar, eu já sabia que queria quadros na minha nova casa.

da lua-de-mel, eu trouxe chocolates, canecas, livros sem linha, caneta tinteiro e quadros... (e meu marido é um santo...rs!).
claro que não foram só telas, porque não caberiam nas malas.
mas aquarelas, posters, retratos...

a arte é infinita.
queria que minhas paredes também fossem... :)

das coisas que nos inspiram a viver mais e melhor

título longo.

numa dessas manhãs passadas, acordei e percebi no twitter um "parabéns" do perfil do @SteinwayAndSons ao documentário "the lady in number 6" pela indicação ao oscar.

fui ler a respeito, e sinceramente, uma das coisas mais inspiradoras que já vi nos últimos tempos.

trata-se de um retrato da pianista mais velha do mundo, e também a mais velha sobrevivente do holocausto.

109 anos, e nesse trailer, toca a invenção a 2 vozes de bach n.8 com uma destreza incrível... faz até o toque que é típico do barroco.

ela também é só sorrisos. 
e reclama que todos a sua volta são tão sérios...

que inspiração.
que inspiração...


da semana

minha casa nova ainda não tem piano.
nesse sábado a noite, fiz uma visitinha aos meus pais, e lá estava meu ex-yamaha.

ah, a vida com piano...

20.1.14

claudio abbado


morreu hoje aos 80 anos, o famosíssimo maestro italiano, que regeu a orquestra filarmônica de berlim (considerada a melhor do mundo) de 1990-2002! conhecido pela música refinada que produzia e seu vasto repertório sinfônico...

eu não tinha um sentimento forte sobre sua pessoa, mas reconheço sua competência musical e importância no mundo erudito...

aqui um artigo falando sobre sua morte, e abaixo, um vídeo de uma performance completa do requiem de mozart, que foi apresentado em salzburg em memória de 10 anos da morte do seu maestro antecessor e mentor na orquestra filarmônica de berlim: hebert von karayan (esse foi mais mito ainda, e muito mau também...rs)!

sugestão: assita a partir do minuto 0:45, que é o começo do benedictus, com um quarteto MA-RA-VI-LHO-SO! irretocável... e a regência emocionada de abbado no final é linda de assistir também!

novo ano, nova vida

o ano começou dia 1;
casei dia 2;
voltei da lua-de-mel dia 16;

e a vida segue... na melhor e mais completa forma que possa existir.
o blog também segue.

aqui, recomeço um ano de palavras e de músicas...

feliz ano novo :)

6.12.13

27 dias

e eu me assustei ao ver a última data que postei aqui!
a-gos-to!

nem vi os últimos meses passarem...

agora, faltam 27 dias para aquele dia.
não percebi o tempo passando;
e por outro lado...
já é hora :)

ps: em breve, posto uma sessão de fotos cheia de amor, típica dos casais que querem muito mostrar a felicidade...rs! eu nunca gostei tanto de fotos assim, e cá estou eu, rendida!! :) :) :)

só uma amostrinha...


28.8.13

obsessão de hoje

porcelana portuguesa azul!
muitos, muitos suspiros...
eu aceito de presente, ok?
:) :) :)




27.8.13

de antes e agora


eu antes gastava meus dias procurando partituras, me alegrando com descobertas de blogs sobre música, habitando livrarias, garimpando concertos possíveis e sonhando com os impossíveis.
passava meus dias ouvindo e descrevendo, tirando conclusões sozinha e me contentando com elas.
eu antes vivia o meu próprio mundo de música, de livros, de arte... e de abstração.
vivia para o trabalho e para realizar coisas.
vivia inflamada pelo amor `a arte, que era tão real quando inatingível.

hoje, eu ando por livrarias e compro revistas de decoração, de casamento, livros de conselhos sobre relacionamentos...
hoje eu me preocupo com os diferentes tons de branco, os nomes das flores e dos tecidos...
eu garimpo sites de móveis usados, gasto meu tempo no trânsito para a casa que logo será minha, ando com uma fita métrica na bolsa e com as medidas de cada cômodo e converso, discuto... falo e ouço muito!
hoje eu vivo num mundo em que a minha opinião não é a única, e nele, chegar a uma conclusão demanda trabalho e tempo.
eu hoje vivo para alguém, e para realizá-lo... vivo inflamada pelo amor a ele, que é tão irreal quanto palpável.

na verdade, das minhas audições cuidadosas, sobraram os momentos no carro, nas horas de trânsito, em que as rádios eruditas (90.9 e 91.5) se revezam. quando uma fica muito histérica (strauss, tchaikovsky) eu mudo pra outra (mendelssohn, schubert)...principalmente de manhã.
esses carros de hoje em dia tiraram toda a graça de ouvir rádio erudita: não dá mais pra adivinhar o compositor ou a obra. os visores eletrônicos contam tudo isso... malditos!

a vida segue.
a vida corre.

`as vezes tenho saudade de mim.
mas então me olho e vejo que não mudei; me ajustei...

simplesmente, não sou mais só eu.
e a vida a dois é isso...

é muito melhor viver um amor do que ser inspirada a um, sem tê-lo...
é muito melhor ser eu e ele, do que só eu e música...
porque no fim das contas, seremos sempre ele, eu e a música!

:)

1.7.13

arco-íris


experimentando todas as suas cores...
e entendendo que "qualquer amor já é um pouquinho de saúde"...
aliás, se é assim, virei imortal :)

"a terceira margem do rio"...

hoje foi noite de guimarães rosa pra mim...

reli uns pedaços favoritos de "sagarana" e li pela primeira vez o conto do título aqui...
tão triste quanto bonito.
mas essas duas coisas me assaltaram com tanta força, que acho que não consigo dormir.
e amanhã tenho médico cedo...

vou copiar e colocar tudo aqui.
uma escrita fina e regional.
tão sensível que a leitura não é um mergulho; é um afogamento.

se você não quer esse sentimento duplo de tristeza e encanto, não leia.


A Terceira Margem do Rio
Guimarães Rosa

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.

Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.

Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.

No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.

Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o 'dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.

A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.

Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.

Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — "Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim..."; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.

Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.

Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.

Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.

Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.

Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.

Texto extraído do livro "Primeiras Estórias", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1988, pág. 32, cuja compra e leitura recomendamos.

14.5.13

de coelho a ser mãe

olhando pra varanda daqui de casa, avistei um coelhinho pulando.
achei tão bonitinho...
então meus pensamentos começaram a vagar por caminhos que nem sei, e então lembrei que coelho neto escreveu um poema bonito sobre as mães...rs!
hahaha! a mente é uma coisa fantástica!

fica aqui, minha homenagem atrasada a todas as mães, em especial a mais linda de todas, que é a minha :)


Ser Mãe 
de Coelho Neto
Ser mãe é desdobrar fibra por fibra 
o coração! Ser mãe é ter no alheio 
lábio que suga, o pedestal do seio, 
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra. 

Ser mãe é ser um anjo que se libra 
sobre um berço dormindo! É ser anseio, 
é ser temeridade, é ser receio, 
é ser força que os males equilibra! 
Todo o bem que a mãe goza é bem do filho, 
espelho em que se mira afortunada, 
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho! 

Ser mãe é andar chorando num sorriso! 
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada! 
Ser mãe é padecer num paraíso! 

sobre o sucesso

vi esses e desenhos, e concordei em todos os níveis...
e só há um detalhe: em certos casos, a linha sobe, mas nunca fica reta.
pra pensar...